Laudo produzido pelo Núcleo de Criminalística da Polícia Federal em São
Paulo indica que os cinco fardos de cocaína pura apreendidos por
policiais do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) em
setembro de 2003 no aeroclube de Itu, no interior de São Paulo, tinham
entre 128,4 e 156 quilos. A quantidade estimada é no mínimo 30,4 kg
maior do que a equipe chefiada pelo delegado Robert Leon Carrel diz ter
encontrado no avião usado pelos traficantes (98 kg).
O
policial hoje é chefe da Divisão de Administração do Departamento de
Polícia Judiciária da Macro São Paulo (Demacro), unidade responsável
pelas delegacias da região metropolitana. O suposto sumiço do
entorpecente levou Carrel, o também delegado Luiz Henrique de Moraes e
os investigadores Ricardo Ganzerla e Cleuber Gilson Bueno para a cadeia
em junho de 2008. A ordem de prisão foi expedida pela 29ª Vara Criminal
da capital, que acolheu na íntegra a acusação de tráfico de drogas e
peculato. Os policiais foram soltos 24 dias depois por habeas corpus do
Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).
Os peritos federais
realizaram duas simulações distintas para indicar o provável peso do
carregamento de entorpecente - uma com a droga não compactada e outra
com o entorpecente prensado, como provavelmente foi transportado. A
conclusão do primeiro ensaio é de "massa não menor que 128,4 kg". O
segundo apontou "massa não menor que 156 kg".
A PF analisou
ainda a viabilidade técnica de o monomotor Cessna 210 ter decolado com
200 kg de cocaína, peso anunciado em nota distribuída pelo Denarc no
dia da apreensão e reproduzida no site da Secretaria da Segurança
Pública. "Diante de tal configuração da aeronave, o transporte de 200
kg de cocaína, distante ainda cerca de 70 kg do máximo comportado, é
plenamente factível", diz o laudo, na folha 10.
O pedido de
auxílio da perícia federal partiu do Ministério Público Estadual (MPE).
Desde o início das investigações, defesa e acusação divergem sobre a
quantidade de droga apreendida. O perito Ricardo Molina, assistente
técnico do MPE, sustenta que a aeronave levava cerca de 200 kg de
cocaína. O parecer de Molina foi feito por meio de comparação de
imagens, tendo como referência reportagens veiculadas pelas TVs. O
piloto Pierre Delannoy, um dos quatro presos na operação em Itu, afirma
que o carregamento era de 300 kg.
A pedido da Corregedoria de
Polícia Civil, que na ocasião instaurou procedimento para apurar a
atuação dos policiais, o Instituto de Criminalística também se
manifestou sobre o caso. O laudo assinado pelos peritos Osvaldo Negrini
e Marcelo Voloch faz duras críticas ao trabalho de Molina. "Mensurações
em imagens para comparar algo de tamanha seriedade são, no mínimo,
irresponsáveis", escreveram. O texto afirma que o assistente técnico do
MPE "confundiu alhos com bugalhos".
A técnica de comparação
adotada pela PF foi a mesma de Molina. Ao contrário dele, que usou
pacotes com farinha de trigo para compor o cenário da apreensão, os
peritos federais tiveram autorização da Justiça para usar 100 tijolos
de cocaína prensada. Simulacros com dimensão e massa idênticas aos
tijolos de cocaína interceptados pelo Denarc foram confeccionados para
se atingir o suposto peso da carga.